Desde 1941

 

Um dia meu pai chegou em casa com um TK-85, um computador. Tinha 4K de memória e era um assombro.

Passamos o domingo lendo o manual, maravilhados com a tecnologia.

Depois ele comprou um 286, depois um 386, depois um Pentium.

Comemorando hoje seus 69 anos, está com celular com câmera, notebook, internet sem fio. Outro dia me perguntou sobre twitter. Qualquer hora monta um blog (http://alquimiasenior.com.br ?)

Ano que vem, aos 70, quer tentar algo mais perigoso. Ir a um restaurante típico bahiano e pedir um prato apimentado.

Porque não se chega aos 69 todos os dias.

Miguelão e Manuelzim

 

Parei o carro no farol. Um bicho veio pedir dinheiro - havia uns vinte fazendo pedágio.

"Oi, pode me arrumar qualquer dinheiro?"

"Você entrou em quê?"

"Direito na USP".

Tentei arrumar uma moeda, consegui uma de R$ 0,50, entreguei a ele.

"Só isso?", ele reclamou. "Larga de ser pão-duro, arruma umas nota aí".

"Isso é um pedágio ou assalto?"

"Tá, pode ficar com o dinheiro aí, não precisa, miguelão!". 

Mais um grande advogado para a república.

The force will be with you. Always.

 

Dizem que formatura é tudo igual. Não.

Encontrar as pessoas com quem se conviveu três anos, agora com uniforme Hogwarts. Ou trajes civis, porque tinha gente como convidado, não menos formados por isso.

Receber o convite para falar, ter uma ponta de orgulho mas pensar, "ok, estão se formando. Tipo, acabou mesmo".

O discurso estava pronto, escrito no celular, que desligou por conta própria assim que o mestre-de-cerimônias disse "pode começar, professor". Improvisar.

(Por isso sou fã de um bom manuscrito, de preferência com iluminuras e símbolos).

Olhar para o pessoal de três cursos, lembrar de momentos memoráveis, todos comprimidos ali.

Falar referências enigmáticas que nem os pais nem a mesa entenderam, mas o pessoal entendeu . Um dia eles vão te pegar.

Contrabandear garrafas de água da mesa para as pessoas de beca - aquele treco esquenta.

Muitos abraços e apertos de mão depois, ver as famílias, entender semelhanças.

Depois, o azul irremediável de São Paulo.

Parabéns, jovens jedis.

Causa e efeito

 

Livros com desconto valem qualquer sacrifício.

Até pegar toda a chuva de hoje, ida e volta, para conseguir um belo abatimento - a conta que sairia R$ 95,00 saiu por R$ 38,00, o que dá uns... uns... sei lá, muitos por cento de desconto.

Mas foi chuva na ida, três sacolas plásticas - haja meio ambiente - para proteger os livros, chuva na volta.

E a sensação de chegar em casa ensopado, mal aguardando a hora de tomar um comprimido, um cebion, um chá-da-vovó e ler, tendo calafrios de vez em quando.

Porque livros valem qualquer gripe.

Atchim.

Memórias do Cárcere no. 3901 - Drummondiana a cinco vozes

 

Alfredo era o professor de Português, mas ficou doente e foi substituído pelo

Gilberto em abril, que saiu (disseram que ele era... comunista!) e deu lugar para a

Cibele em junho, que não voltou em agosto, e quem estava era a

Fernanda, que não controlou a sala e em setembro veio o

Edmundo, autoritário, que só não foi substituído por J.Pinto Fernandes

Porque não consta que alguém na chefia do lugar tivesse lido Drummond.

Livraria & Papelaria

 

Na primeira semana de fevereiro vinha a lista de material escolar. 

O colégio pedia desde coisas óbvias como "lápis", "borracha" e "caderno" até uma dezena de peculiaridades conforme quem estivesse no comando - uma vez tinha "clips coloridos" na lista.

Na média, todo ano era a mesma coisa:

 

2 lápis pretos HB

2 canetas esferográficas preta ou azul e vermelha.

1 Borracha

1 Caderno de apontamentos

1 Caderno de Tarefas

1 Caixa de Lápis de Cor com 36 cores

1 Estojo

1 Caixa de Canetas Hidrocor com 12 cores

 

Dias depois, já com as aulas em curso, vinha a lista de Educação Artística:

 

2 lápis preto 2B

1 Caderno de desenho

1 régua de 30 centímetros

1 tesoura sem ponta

1 transferidor 180 ou 360 graus

1 compasso sem ponta

 

A maior parte do material nunca era usado.

Os cadernos eram para desenhar e/ou escrever textos aleatórios durante as aulas - naquele tempo longínquo não existia blog.

Teve um ano que a orientadora pedagógica proibiu lapiseiras. Os pais reclamaram e o colégio proibiu a orientadora pedagógica.

Dos pedidos para a aula de artes, no máximo usávamos a régua - como espadas. Nas aulas o professor dava desenho livre ou papos-cabeça sobre a vida, a arte, o mundo. Aula mesmo, a sério, teve duas ou três.

As canetas esferográficas eram um mistério: estavam na lista, mas não podia usar em aula. Devia ser algum fetiche da direção.

Peculiar.

Talk show



Olá! Por conta dos recentes acontecimentos com o clima em escala global, hoje esta Alquimia entrevista com o responsável pelo tempo, São Pedro, que vai conversar com a gente via teleconferência.

Alquimia: Bom dia, São Pedro. É um prazer tê-lo aqui. Vamos direto ao assunto: por que está chovendo tanto em São Paulo?

São Pedro:  Pluvius ecce in Sancti Paoli solaribus intervenientia causa.

Alquimia: A maior parte dos leitores não fala latim...

São Pedro: חם מאוד. הקודש, שאול!

Alquimia: Nem hebraico. O senhor, tipo, fala português?

São Pedro:  Desculpe. Disse que está chovendo muito por causa do aquecimento global.

Alquimia: E por que tantas enchentes?

São Pedro:  Peraí, eu regulo o volume de chuvas. Enchentes é coisa da administração. Vai reclamar com o Kassab.

Alquimia: Mas não poderia chover menos?

São Pedro:  Não dá. Uso um programa para controlar a chuva, o Msft Waters, que calcula o volume, e ele travou. Mas estou testando o iRain, logo vou usar.

Alquimia: Ok.  Como é a vida de Santo?

São Pedro:  Tranquila. Fico decidindo quem entra e sai no céu, cuidando do clima, atualizando meu blog. Estou terminando mais um livro, "O Apóstolo e o Executivo". Quem é estressado é o Judas.

Alquimia: Você tem contato com Judas?!

São Pedro:  Tadeu. São Judas Tadeu. O das causas impossíveis, saca?. Você estuda antes dessas entrevistas?

Alquimia: Bom... Dizem que o senhor decide quem entra no céu. É verdade?

São Pedro:  Recebo as pessoas na porta do céu, leio o currículo, meus estagiários fazem uma seleção prévia, e decido quem entra e quem desce.

Alquimia: Desce...?

São Pedro:  O inferno. Direto com o Lúcifer, o Adversário, o Capeta, o Cramolhão, o Coisa Feia,  o Você-Sabe-Quem.

Alquimia: Dizem que o inferno é OpenBar, confere?

São Pedro:  Não sei, nunca estive lá. Mas dizem que toca Enya 24 horas por dia.

Alquimia: Bem... O que são todos esses arquivos?

São Pedro:  A ficha de todo mundo, quando nasceu, quando vai morrer.

Alquimia: Já perdeu alguma ficha?

São Pedro:  Tá esperando que eu responda "Dercy Gonçalves", né? Não, nunca perdi.

Alquimia: Não tem como deixar isso mais rápido?

São Pedro:  Está em fase de digitalização há uns vinte anos, mas o pessoal vai nascendo e morrendo todo dia, vou atualizando conforme dá. Aliás, estou com a sua aqui, quer que eu leia para você?

Alquimia:  Obrigado por mais esta entrevista. Abraços.

Memórias do Carcere no. 1678 - Humanas

 

-Bom, dia, meu nome é Seu Agenor. Sou professor de História. Vou começar fazendo a chamada, assim eu conheço o rosto de cada um de vocês, tá bom?

E puxou do bolso do paletó uma caneta Bic.

-Essas canetas bic são muito boas, tem de várias cores, são muito fáceis de usar. Eu, quando era criança, não tinha dessas canetas, mas agora eu tenho. Vamos começar a chamada. Ana Lúcia?

Uma garota água e sal lá na frente ensaiou um "Presente!".

-Ana Lúcia, né? A-n-a-l-u-c-i-a, somando as letras do seu nome dá 18, número de sorte. Nosso planeta está entrando em uma nova era, e seu número é muito importante. Você tem uma boa conexão com o astral. Vocês sabem o que é o astral?

Quarenta e oito minutos depois, todos sabíamos o que era o astral.

Na aula seguinte foi o zodíaco, na outra o fim dos tempos, o apocalipse, porque a nova era seria das mulheres, a vida, o universo, tudo o mais.

História mesmo não rolou, mas quase atingimos o nirvana.

Peculiar.

Memórias do Cárcere no. 3645 - Exatas

 

Dona Victória era professora de Química. "viCtória", ela explicou na primeira aula.

Começou a explicar a matéria, e em poucos minutos a sala estava mergulhada no universo da química.

A certa altura, parou de falar, pegou suas coisas rapidamente e saiu. Ninguém entendeu nada.

Na semana seguinte, Dona Victória - "viCtória", ela nos lembrou - chegou, pegou um giz, escreveu um "f" na lousa, olhou para a sala, apontou para o vazio, começou a chorar e saiu.

Minutos depois o diretor entrou:

-O que vocês fizeram com a professora Victória?! Bando de moleques! Sem coração! Ela tem problema, vocês não sabem? Ela tem problema!

E saiu pelo corredor, repetindo "Ela tem problema, ela tem em problema! Ela tem problema!".

Que coisa.

Memórias do Cárcere no. 2764 - Biológicas

 

Reginaldo era professor de Biologia. Magro, não muito alto, um pouco mais de vinte anos, jaleco branco.

Entrou na sala sorrindo amarelo, olhando para os lados, deixou uma pilha de livros sobre a mesa, olhou para os lados novamente, tirou uma caneta do bolso, arrumou os livros, colocou a caneta de volta no bolso, a sala olhando, ele tropeçou na mesa, se virou para a turma e se apresentou:

-Oi, o meu nome é Reginaldo. Eu estou com 27 anos, e eu sei que vocês ficam meio assim com professor novo, tá?, mas quero dizer que vocês não são minha primeira classe, tá?, não é a primeira vez que eu dou aula, tá?, não é a primeira vez que dou aula.

Olhou para os lados, a sala olhando para ele:

-Eu posso parecer meio nervoso, tá?, mas é que está calor. Ah, eu sou professor de Biologia, nós vamos estudar Biologia. E olha, não quero saber de bagunça, tá? Anotem aí, vocês vão usar o livro do Sézar & César, tá?, chama "Biologia". Bom, vamos começar.

E começou a escrever na lousa. A mão tremia, dava para ver do fundão. Escreve, escreve, escreve. Dez minutos, vinte, lousa cheia. Se virou para a sala, transpirando cada letra,  e disse:

-Muito bem, entenderam? Alguma pergunta?

A sala o olhava.

-Então tá. Eu vou sair para tomar um cafezinho enquanto vocês acabam de copiar, tá?

E nunca mais voltou.

Sao Paulo,

 

 

"Depois desses dias aí em São Paulo, entendo porque vocês gostam tanto da cidade. E neste momento estou aqui na UEA usando orgulhosamente a camiseta com a estampa da Avenida Paulista que ganhei".

Lee Marsden, de East Anglia, por email, após a visita à cidade em novembro de 2009.

 

 

SONNET 116

William Shakespeare

 

Let me not to the marriage of true minds

Admit impediments. Love is not love

Which alters when it alteration finds,

Or bends with the remover to remove:

O no! it is an ever-fixed mark

That looks on tempests and is never shaken;

It is the star to every wandering bark,

Whose worth's unknown, although his height be taken.

Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks

Within his bending sickle's compass come:

Love alters not with his brief hours and weeks,

But bears it out even to the edge of doom.

If this be error and upon me proved,

I never writ, nor no man ever loved.


De longe

 

A procura por um livro raro e antigo tem alguma coisa de aventura.

Começa sempre por uma ronda pelas livrarias de usados. Por que não ir direto para a Estante Virtual? Porque não tem o suspense da procura, só isso.

Depois dessa fase, se o treco realmente não existe, começa a fase virtual. Aí sim entra a Estante Virtual.

Mas tem alguns que nem lá dá para encontrar.

A cartada final, se é o caso, é tentar comprar de segunda mão na Amazon. O serviço é bom, o estoque de usados vale a pena. Só não é rápido.

Mas a rede é excelente e o preço vale: descobrir, por exemplo, que o livro procurado existe em uma pequena livraria perto de Newcastle, no meio da Inglaterra, por um décimo do preço de um novo.

E então, comprar e esperar. Porque é bom, mas demora. São pelo menos seis semanas entre a encomenda e a chegada.

Mas quando chega, no pacote superhiperprotegido da Amazon, é quase uma revelação. Se tivesse um programa tipo Gugu ou Márcia ou qualquer outro for nerds only poderiam fazer uma daquelas reportagens brega tipo "pai reencontra filho depois de 40 anos".

Abrir o pacote com cuidado, tirar o livro, observar cada detalhe. Capa, contracapa, textura, cor, formato.

Direto dos arredores de Newcastle, sem nenhum arranhão.

Esplêndido.

Pega! Pega! Pega!

 

No ônibus, hoje pela manhã.

O motorista parou ligeiramente fora do ponto. Um passageiro subiu reclamando:

-É gozação, né? Cada um para onde quer...

O motorista comprou a briga:

-Gozação? Gozação o quê?

Então os dois começaram uma espetacular série de argumentos e contra-argumentos:

-Gozação é você parar fora do ponto.

-Eu parei perto do ponto. Por acaso tem um X marcando o lugar que é para parar?

-Tem, tem um X, respondeu o passageiro, após a catraca.

-Então me mostra, gritou o motorista.

À medida que o passageiro ia mais para o fundo do ônibus a briga ficava mais exaltada.

Metade do ônibus estava na torcida para eles saírem no braço. A outra metade esperava tiros. Mas os dois ficaram na conversa: se o motorista fosse brigar, batia o ônibus; se o passageiro tentasse voltar, a multidão não deixaria.

Eles continuavam:

-Vai, tá bom, você está certo - disse o motorista.

-Não, você tem razão, você sabe tudo - respondeu o passageiro.

-Meu, eu tava de boa, levo todo mundo com o maior prazer, sem diferença de raça, cor ou religião. Mas você tá certo, sempre.

-Tá, tá bom, você tem razão. Você tem sempre razão.

-Não, você tá certo.

E, quando desci, eles estavam lá, brigando, dando razão um para o outro.

Peculiar.

Os nerds também malham - no. 86248

 

O ambiente saudável de academia é quase insuportável. Pessoas felizes, correndo, fazendo exercícios, levantando pesos. Força, dedicação, garra e superação.

Eu, uma pedra.

O entusiasmo do instrutor, logo que cheguei, era comovente:

"E aí, vamos queimar tudo?"

Se o convite era para tacar fogo na academia, ok, mas suspeitei que ele não estava falando disso. Ele continuou:

"Você vai fazer três séries de exercícios em cada aparelho. Depois de uma bateria, descanso de 30 segundos".

Fiquei pensando quanto podia durar trinta segundos enquanto andávamos. Uma hora ele parou e explicou:

"Isto é para fortalecer o braço. Senta aqui, os pés ali, vira o pescoço e faz dez vezes o movimento". Ele fez uma vez e passou a bola: "Agora faz você".

O negócio parecia uma moto cubista. Tinha um lugar para apoiar os pés, e essa era a única coisa evidente.

"Não ponha os pés aí!", ele gritou. "Tem que colocar no descanso carpiano". Olhei sem entender, ele explicou: "Ali, na parte preta". Ah, tá.

Em uns instantes eu estava na máquina. Completamente imobilizado.

"Ok, agora é só começar", ele disse..

Empurrei o negócio para frente, ele me empurrou para trás. Newton tinha razão. Não, péra, não foi Newton, isso é Kepler. Não, é Newton mesmo. Seja lá quem foi, o instrutor explicou:

"Tem que mais força. Aqui a gente vai no limite. Vai aí, já volto".

Mais alguns movimentos. Diminuição geométrica do fôlego depois do segundo exercício.

"Quando ficar fácil me avisa que eu aumento a compressão, ok?", disse ele, passando.

Pode esperar.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Visitante número: